Quem (eu) sou?

Sentada na minha varanda, observo a chuva cair lentamente, em pingos quase invisíveis para o meu olho. Todas as plantas molhadas, toda a grama verdinha, e a umidade me presenteando com um pouco de um frio gostoso, tão estranhamente comum nessa época do ano.

Descobri que viver é estar vulnerável às vulnerabilidades de ser humana, e que não posso fugir de algo tão natural quanto sentir. As emoções me parecem distantes e frias, e não sei quem eu sou. Não me entendo, por mais que acredite que sim. Cresci pensando certas coisas de mim mesma, coisas essas que acabaram por serem desmascaradas e tidas como não verdades para meu coração. Cada vez mais reparo em como da minha boca saem palavras hipócritas, que nada condizem com o meu agir natural e muitas vezes inconsciente.

Até quando? Me pergunto.

Vejo-me em frações de espelhos quebrados, e é na dúvida que encontro o abismo da minha alma. Não sou o que penso ser e muito menos o que aparento. Quem eu sou nem eu sei, e prefiro não saber, por agora.

Se encontrar é se deparar com fatos muitas vezes não encarados, e encará-los é ter coragem para enfrentar o nosso pior inimigo: nós mesmos.

Quero ter coragem para ser real, e ver até mesmo aquelas partes mais sombrias escondidas dentro de mim. Nua. Crua. Cor de realidade. Agora, depois, ou quando o senhor do tempo chegar até mim me cobrando as contas do meu próprio plano evolutivo.

É Agora?

Achamos que controlamos nossa própria vida, e vivemos essa vida no sofrimento da ilusão. Sem saber que o não-saber é mais real, ficamos presos a algo que não existe. A experiência se limita, as oportunidades e possibilidades tornam-se escassas, e a diversão entra em extinção. Do que vale viver, então?

Agora deitada na minha cama, observo o abacateiro no quintal da minha casa, e seus abacates quase grandes o suficiente para começarem a cair. Observo a árvore que me observa, calma, silenciosa, num ritmo só dela.

Relembro uma árvore em pleno florescimento. No auge de sua beleza e energia criativa, a árvore espalha cor, perfume e graciosidade. E pouco tempo depois, aquela beleza rara se transforma em algo mais: vira fruto. Suculento, amargo, doce, azedo… fruto azul, branco, preto, amarelo, laranja e vermelho. E pouco tempo depois, aquele fruto cai. Se espatifa no chão, é pisado, comido, vendido e descascado. Vai pro lixo, vira composto, deixa de ser fruto e vira adubo.

A árvore deixa ir, até mesmo seu bem mais precioso. Sem medo, abre mão das suas flores, frutos, sementes e folhas. Abre mão de quase tudo, porque confia que aquilo é o que precisa ser feito.

A árvore não controla, só deixa ir. Se entrega para a experiência de ser árvore, e vive sem pensar.

Por que nós, seres humanos, não podemos viver como árvores, só por alguns instantes?

Cansei de pensar, minha mente exausta pede trégua desse pensar desmedido.

Pronto, já sei:

vou ser árvore.

árvoreu. lá vou eu, ser árvore.

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