Não precisamos ser a Floresta toda!

Eis que acordo, e no movimento lento de levantar da cama, me recordo de uma frase que escutei nalgum momento nessa vida, ou em outra:

”Você não precisa ser a floresta toda, pode ser somente uma árvore.”

O gosto de sono ainda na boca, olhos semicerrados, anestesiados pelos míseros raios de Sol que entravam pela janela – não conseguia lembrar, de jeito nenhum, onde e quando escutei a tal frase que, pulsando na minha mente, me fez acordar para confabular comigo mesma. Mesmo não conseguindo lembrar os detalhes de uma simples, porém complexa frase, isso não importou em nada, sendo importante apenas o fato de recordar tal ensinamento em um momento tão delicado da minha vida, talvez como obra desse destino que nos coloca cara-a-cara com o que precisamos encarar.

Poderosa. A frase. Já de pé, caminhei em direção ao quintal – buscando respostas para aquele insight tido às 9:45 da manhã. Desde a primeira vez que tal frase ressoou em meu ouvido, até hoje, ela consegue tocar em lugares profundos e desperta em mim muitos sentimentos adormecidos. Me conheço por querer, vez ou outra, carregar o peso do mundo sob minhas costas, e ainda querer que esse peso seja leve. Em parte, fico feliz, por já ter uma consciência que me permite identificar tais atitudes. Mas ainda assim, o padrão existe e é necessária uma vigilância constante, para que eu não me deixe cair e adormeça no cansaço, imersa na ilusão de sustentar o mundo todo.

Quando paro para refletir sobre a analogia da árvore e da floresta, consigo ter uma visão geral de como nós, humanos, muitas vezes podemos nos sentir incapazes e inuteis.

‘Ser apenas uma árvore? Mas como assim?”

Realmente, a sensação de impotência vem pelo fato de que, no mundo em que vivemos, foi nos ensinado que para mudar alguma coisa ou para ser alguém importante você precisa de ou dinheiro, ou poder ou influência. Afinal, o que um cidadão “normal de classe média” pode fazer? Nada, não é?
E ser uma árvore, principalmente uma sem muitos galhos, sem muita folhagem e sem muita sombra, nos faz sentirmos pequenos junto àquelas tão grandes, mas tão grandes, que temos a impressão de estarem tocando nos céus.

A questão é: não nos ensinaram, nas escolas ou em casa, que cada árvore desempenha um papel importantíssimo na floresta. A árvore maior e mais cheia não existiria se não fossem pelas menores e mais rasteiras. Cada uma tem sua missão ali, e isso não é competição, é cooperação.

Não nos ensinaram que temos o nosso valor, intrínseco, existente em nós desde o momento em que nascemos. Por outro lado, nos ensinaram que para ter valor, era preciso fazer algo, ser algo, estudar, produzir, ”crescer na vida”. Nos ensinaram todos esses tipos de besteiras, menos o que realmente importa – que já temos nosso valor e a nossa importância nesse mundo, não precisamos ser a floresta toda para sermos reconhecidos, podemos apenas ser uma árvore e sermos FELIZES assim.

Da mesma forma que as árvores rasteiras tem sua importância em um ecossistema, nós também. Da mesma forma que uma simples semente, que não pode nem ser vista, tem sua importância, NÓS TAMBÉM TEMOS A NOSSA. Não é preciso ser grande, apenas ser você.

Ser uma árvore é se libertar da necessidade de agradar, é poder ser quem você é, sem o peso de precisar ser tudo, mas poder apenas escolher, nas mínimas coisas, a verdade ao invés da ilusão.

Nós queremos ser a floresta toda pois temos medo de ser apenas nós mesmos.

Temos medo tanto da nossa grandiosidade como da nossa pequenez.

Temos medo das nossas fraquezas, e também do nosso brilho único, e por isso nos escondemos na ilusão de que seria mais fácil se sustentassemos tudo, porque claro, ”assim teríamos valor” – pensa a mente racional. Nos sobrecarregamos por medo de sentir leveza, sem querer enxergar o nosso papel como um, buscamos um papel que não existe, e assim nos enterramos na ideia de que precisamos ser responsáveis por tudo.

Quando esquecemos que somos especiais da forma que somos? Quando?

Somos uma semente em uma floresta, esperando o raio de sol para brotar na úmidade fértil. Somos o indivíduo presente no coletivo, na sociedade, nas tribos específicas que tanto nos identificamos, ou não. Somos a pequena gota que ajuda a preencher o oceano. Somos o grão de areia no deserto árido. Somos um raio de sol e uma estrela que compõe o céu azul-indígo. Somos importantes – já que somos parte do todo – como não ser?

Mesmo que as vezes possamos parecer inúteis ou sem valor, o mundo não seria mundo sem você. O mundo é a extensão do indivíduo, as milhares de veias que se ramificam e criam uma teia interligando seres de todo tipo. Nós temos o poder de mudar o ambiente em que vivemos, e nossas atitudes impactam o mundo, pois o mundo somos nós. É seu vizinho ou vizinha, seu namorado ou namorada, sua mãe, seu animal de estimação, o porquinho em uma fazenda, seus irmãos ou irmãs, seu pai, sua família, amigos, companheiros de trabalho, animais selvagens, vacas e bois, e toda a natureza que permeia tudo e está dentro de cada ser animado ou inanimado. O mundo é isso. O mundo é a floresta. E nós somos uma árvore nessa floresta, um ser neste mundo. Afinal, se a floresta vive com as árvores que apenas SÃO, porque não podemos testar apenas SER, para vermos se a sociedade funciona assim?

Acredito na revolução. A revolução em que aprenderemos com as árvores como apenas Ser, como brilhar sem nada fazer. O dia em que somente existir será motivo de celebração. Nesse dia quero viver, e quero ver, com olhos límpidos, a humanidade que um dia sonhei.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s