Sobre a dor de existir

Recife, 17 horas e 30 minutos.

De frente para o computador, aproveito o conforto da minha poltrona de madeira, na varanda do apartamento de Boa Viagem. Sentindo-me em parte inútil, e em parte cansada por não ter feito nada produtivo o dia todo, escolho transformar em palavras o que dentro de mim parece mais uma tsunami emocional.

Algumas plantas ao meu redor me saciam a saudade da terra e de verde, já que no entorno os prédios são a vegetação construída e típica dessa selva de pedra que estou imersa. O dia já deu lugar a noite, e o fim de tarde desperta em mim sentimentos melancólicos, um misto de alegria e tristeza por estar viva.

Uma dicotomia difícil de lidar, porém presente em muitos momentos da minha história de tragédia/comédia que eu chamo de vida.

Enquanto escrevo, escuto uma playlist no Spotify que se chama Deep Dark Indie Folk – ilustrando bem o momento que estou passando de dor e solidão, mas com a consciência da profunda cura a nível d’alma que está acontecendo.

Eu estou viva, e me sinto assim desde que nasci. Mas também sinto a morte em meu ser, inerente a minha condição humana que me puxa para a Terra e me diz de diversas formas que eu também sou de carne e osso. Por vezes esqueço desse fato, e acho que sou uma estrela brilhante no meu céu furta-cor, onde lá não existem problemas, desafios ou provações. Meu doce escapismo pisciano é a minha válvula de escape para não ter que sentir as dores de existir. Prefiro me internar nas minhas ilusões e esquecer aquilo o que precisa ser visto, para enfim ser curado. E fui acumulando, ao longo da minha existência, a bola de neve que hoje eu tenho maturidade para enxergar, nem que seja em parte.

Porém, como lidar com tudo o que fizemos, ou deixamos de fazer durante a nossa estadia nesse planeta? Como lidar com tudo o que fomos e deixamos de ser? Como lidar com essa bola de neve de relacionamentos, histórias, eventos, momentos e dores? Como lidar com o passado que nos atormenta e volta a todo instante querendo ser revisto?

Sinto que cheguei em um momento chave da minha jornada, e aqui onde estou não consigo mais correr de mim mesma, tentar me esconder dos meus próprios fantasmas, ou procurar alento onde definitivamente não há nada. Decidi, finalmente, olhar para trás e aceitar o que passou – tudo o que veio antes desse agora – para assim poder estar presente e inteira na minha condição.

Não há um Ser humano sequer que não sinta dor por apenas existir.  É natural, faz parte de quem somos. Sentimos dor ao nascer, sentimos dor quando bebês, sentimos dor quando criança, sentimos dor quando adolescentes, e quando nos tornamos adultos começamos a acreditar que sentir dor é errado – que ser feliz é não sentir dor alguma, e ser uma pessoa de sucesso é somente sentir alegria 100% do tempo. Mas isso não é real, isso é apenas uma GRANDE MENTIRA.

Então, fazemos de tudo para tapar a dor primária – a dor de ter nascido – e em seguida vamos tapando as dores subjacentes, escondendo de nós mesmos a chave para a nossa libertação pessoal e realização nesse mundo. Afinal, como queremos ser livres se estamos presos às âncoras do nosso passado?

Não existe liberdade sem reconhecimento do que está dentro de nós. Liberdade não é algo externo, muito menos fazer o que se quer, quando se quer. Liberdade é poder agir sem reatividade e sem estarmos condicionados a algo. Ser livre é saber, primeiramente, o porque de determinado movimento, e com consciência fazer a escolha assertiva, baseada em algo REAL e não na ILUSÃO de algo que já passou.

Mas o que é real, neste mundo onde realidade se mistura com sonho e tudo parece ser tão concreto?

Larguei as certezas, deixei de lados os tantos saberes, me esvaziei do que acreditei um dia, para dar lugar ao nada. O nada me assusta e me deixa sem chão, é um território desconhecido para mim, que busco a segurança no conhecimento que adquiri ao longo dos anos. Porém, é somente no nada que posso me ver como sou, sem as tantas bagagens que fui assimilando e escolhi carregar. Essas tantas bagagens que me sufocam, me tiram do meu centro e me fazem pender para o lado de tanto peso.

C A N S E I. Cansei de tentar a todo custo ser algo que não sou. E tenho medo.

M E D O. Pois agora não sei mais de nada, e tudo o que fez tanto sentido um dia não faz mais tanto sentido agora. E A G O R A? O que fazer? Q U E M E U S O U?

Nunca fui muito humilde, porém acreditava que sim, e desenvolvi uma falsa humildade que me distanciou, por muito tempo, de quem eu realmente era. Provavelmente desenvolvemos esses mecanismos de defesa para não ter que lidarmos com a angústia gritante de não sermos perfeitos. Ah, porque é difícil… é difícil não se culpar por não ser tudo aquilo o que sonhamos, é difícil não se culpar por não conseguir fazer tudo da melhor forma possível, é difícil não se culpar por sentir raiva, tristeza, e a própria culpa em si. 

É difícil viver. E porque não ensinam isso nas escolas?

A vida não é só estudar, encontrar um emprego, casar, ter filhos, se aposentar e morrer.

E TUDO o que acontece no entremeio? Nas entrelinhas? DENTRO da gente enquanto esses processos acontecem FORA?

A vida é um conjunto do que está lá com o que está cá. É um embaraço de milhões de emoções, sentimentos, ideias, ideais, memórias, falhas, sucessos, empregos, trabalhos, serviços, relacionamentos, fases, momentos… Como disse Guimarães Rosa: Viver é um rasgar-se e remendar-se. É sim. E a medida que crescemos e vamos nos tornando mais realistas, vamos conseguindo enxergar que a vida não é, definitivamente, o filme que idealizamos como sendo a versão perfeita da nossa história.

Descobri que eu não sou nada mais, nada menos, do que uma garota qualquer, vivendo uma vida qualquer, em um ano qualquer, em uma cidade qualquer, em um país qualquer, em um planeta qualquer. E isso é doloroso para mim que tenho ”questões” com o ”normal”. Dói encarar a minha própria normalidade, mas por outro lado consigo assim tirar o peso de ser ”algo” dos meus ombros. Afinal, não preciso ser nada, e cansei de tentar a todo custo chegar em algum lugar que não existe.

Me vejo imersa em uma sociedade de consumo a beira de um colapso nervoso. E sou parte dessa sociedade. Eu sou a própria sociedade. Não posso mais negar a minha parcela de responsabilidade aqui e agora, e para que eu possa servir nesse planeta da melhor forma, preciso abrir mão do meu ego que quer tudo e quer, inclusive, se sentir especial a todo custo. Parafraseando Nietzsche – eu encaro meus monstros, mas com cuidado para eu mesma não me tornar o monstro. Porque quando eu miro em direção ao abismo da minha própria existência trivial, o abismo também mira em direção a mim.

Ah… mas quem disse que ia ser fácil? Por enquanto não é, porém espero por dias mais leves. Espero, na esperança da mudança, que possamos encontrar um caminho alternativo que ainda poucos caminham.

No fim, a arte me salva da minha própria loucura. E encontro nela o conforto necessário para passar por essa fase de confusão e crise existencial. Escrevo minhas dores, pinto as minhas crises, e desisto de me encontrar. Sentir a dor nunca foi tão bom, e me entregar a ela nunca foi tão real.  

O que te impede de mergulhar de cabeça no seu próprio ser?

Olhar é muito mais do que apenas ver. Encarar é muito mais do que apenas reconhecer. Viver é muito mais do que apenas sorrir.

Cada pessoa tem nessa vida uma forma de ser, e eu estou aceitando cada vez mais a minha. Crua, sou tão rio quanto mar, tão fogo quanto gelo, tão 8 quanto 80. Sou humana, e na minha humanidade encontro a beleza da vulnerabilidade, de não ser nada, e mesmo assim continuar sendo tudo.

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