Pássaros-humanos

E se, por obra do acaso ou mesmo da ironia do mistério do universo, todos virássemos, por segundos apenas, pássaros?

É. Pássaros.

Claro que essa ideia contraria as leis da física e as leis naturais, mas não as do sonho – e por isso sigo esse texto partindo da premissa de que a vida, em toda a sua singularidade e verdade para além da razão humana, pode ser, afinal, um grande sonho. Porque, segundo a tradição oral, foi exatamente isso o que aconteceu em meados do século XXI, época tomada pelo caos e por todo tipo de loucura humana e não-humana: em um dia específico e por alguns instantes, todas as pessoas transformaram-se em pássaros, sem nenhuma exceção. 

Até hoje, cientistas e pesquisadores tentam entender o fenômeno – e implicações – do dia que ficou conhecido como ”O dia em que os humanos viraram pássaros”. Porém, conclusões científicas acerca do ”como e porquê” ainda são inconsistentes, e coube às Religiões intitularem esse acontecimento como ”um milagre apenas possível de ser compreendido, não pela razão, mas pela fé”. Pois bem, sigamos com a história para que eu não me perca nas ideias – até porque, o incrível não foi apenas a transformação dos humanos em passáros, mas também, o desenrolar dos fatos após o acontecido.

Em um belo dia de domingo, o mundo era mundo – nos locais quentes, pessoas iam à praia, nos locais frios se aninhavam em cobertas, nos locais mais a oeste era noite, e nos locais mais a leste, dia. Nos locais em estado de paz: piquenique no parque, e nos locais em guerra: algum esconderijo possível. Alguns liam livros, enquanto outros a ler aprendiam, alguns ouviam música, e outros, surdos, observavam o que seus olhos viam. Algumas pessoas caminhavam, outras corriam, e outras, com muito esforço, saiam da cama porque sabiam que deviam – era domingo e o mundo, em toda sua multiplicidade, vivia ou morria. Alguns amavam, outros se escondiam, de mãos dadas: choravam e sorriam. O mundo era mundo, e ninguém esperava, em pleno domingo, deixar de ser humano e em pássaro se transformar, em um instante de agonia ou de pura poesia.

Puff. Como mágica, azar ou conto de fadas. Puff.

Foi assim, simples assim: em um piscar de olhos, todo mundo virou pássaro – humanos e humanas de todas as cores, nacionalidades, religiões, classes, escolaridades, vontades, crenças e ideologias. 8 bilhões de pessoas, sem perna, pé e mão – mas agora penas, asas e um punhado de liberdade para voar sem destino em direção ao que antes não se podia. Dizem até que a Terra ficou escura, dada a quantidade de pássaros que subiu aos céus, escondendo a luz do Sol por trás do bafafá da novidade de ser não mais mamífero. Foi um festival de cores, cantos, e espécies voando para lá e para cá.

Durante instantes, as guerras pararam, aviões caíram, o dinheiro parou de circular e presos das prisões saíram. E claro, muitos puderam, pela primeira vez, cantar e voar com o próprio corpo, experimentando uma liberdade nunca antes vivida.

Até que, passado apenas segundos, as pessoas foram voltando a ser gente, e para quem estava no céu, não foi uma situação agradável. Muitos sujeitos morreram, outros muitos ficaram gravemente feridos, e para todos, um grande ponto de interrogação pairava sobre as suas cabeças. ”Mas que situação foi essa? Viramos todos pássaros ou estava eu sonhando acordado?” era o que perguntavam a si mesmos e aos outros.

As cidades borbulhavam. Todos e todas saíam às ruas, em busca de respostas para o que há pouco havia ocorrido. Uma confusão só, tanto para cuidar dos que de ajuda precisavam, como também para desvendar o mistério manifestado não em uma pessoa apenas, mas em toda a humanidade viva. Naquele instante, do alto se via: a Terra havia se remexido, e todo mundo agora, seja na rua ou em casa, buscava uma outra pessoa para poder trocar o que se sentia.

Espaços de debate foram se formando nas praças, esquinas, ruas e avenidas, e as pessoas, que antes não se conheciam, perguntavam umas as outras: – qual o seu nome e da onde você vinha. Sendo ex-pássaros, não importava mais o que no passado a pessoa havia sido ou o que, até então, havia feito, e as ruas foram habitadas de tal forma que há muito tempo não acontecia.

O mais belo foi o fato de todos os humanos – perplexos – terem, naquele momento, compartilhado de uma irmandade que, até então latente, se manifestara através de uma experiência comum e unificadora. O episódio vivido por todos e todas, tão surreal quanto a imortalidade, criou um ambiente de ajuda, conexão e identificação. Os dias seguintes ao ocorrido mudaram para sempre o rumo da humanidade, que passou a se compreender não como à parte, mas como parte – integrante – desse todo que compõe o mundo.

Eu, particulamente, não sei o que faria se virasse passáro, mas com certeza ficaria feliz de poder experimentar a vida de uma outra perspectiva que não humana. ”O dia em que os humanos viraram pássaros” foi, sem dúvida, um marco na história da Terra – e os indivíduos que se viram passáros passaram a enxergar o mundo através de uma outra ótica – lidando uns com os outros e com toda a vida que existe neste planeta de forma diferente. De fato, segundo as minhas ancestrais, só estamos vivos hoje porque lá trás, no século XXI, um bando de pássaros-humanos com corpo de penas e consciência de gente foi formado e esse mesmo bando entendeu que eles estavam, acima de tudo, conectados – seja na forma de ave ou Homo sapiens. E isso os impediu de destruir de vez a si mesmos e ao planeta, em uma época bastante crítica – onde o ódio, os princípios do medo, e a violência se perpetuavam aos montes e sem limites.

Segundo o que contam, após o incidente, muitas pessoas nunca voltaram a ser gente e seguiram como pássaros: livres e libertas.

Outras, mesmo depois de terem voltado ao estado humano, passaram o resto de suas vidas se sentindo frustradas, sonhando com o dia que voariam novamente.

E alguns poucos indivíduos viraram humanos-pássaros – híbridos – levando a vivência da leveza dentro do corpo humano para sempre.

Humanos-pássaros.

Pássaros-humanos.

E um grande sonho.

Ainda hoje sonho com gente virando pássaro.

Pássaros-humanos.

Humanos-pássaros.

Quero ser pássaro também. E quero voar. Mas lembrei que já voo.

Eu, uma apenas-humana que voa, não com asas mas com a imaginação, e que voando enxerga um mundo melhor. Eu, apenas-humana… quem me dera ser pássaro e ir além dessa visão sub-humana que nos afasta, limita e separa.

Afinal, quem me dera, acima de tudo, ser não apenas, mas completamente humana e me sentir pertencente à esta humanidade que por direito de nascença me cabe: hoje, amanhã, e sempre.

Eu… você… você e eu… pássaros ou humanos?

Humanos-pássaros, pássaros-humanos, humanos e pássaros.

Que possamos ser: seja pássaro, gente, ou tudo o que quisermos.

Que possamos.

Com amor,

Tália.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s